Entrei na recepção do consultório vinte e cinco minutos antes da hora da consulta, e quando finalmente pude entrar, eu esperava respostas. Ou talvez eu só quisesse que ele me ouvisse. Afinal, ele diz ser meu terapeuta e pede para que eu diga absolutamente tudo o que me incomoda.
“Então, Doutor, isso é doença?” Eu perguntei depois de relatar a minha história gigantesca, que na tentativa de resumir deixei ainda maior. Ou ele não me ouviu, ou dormiu enquanto pediu para que eu falasse de olhos fechados, ou simplesmente não presta para a profissão. Ele disse que não quero me curar, mais ou menos umas quarenta vezes, e quando eu estava prestes a sair do consultório, ainda o ouvi dizer: “Eu falo sério, você vem a cada três meses, e eu sempre ouço a mesma história, e digo as mesmas coisas, e você volta sem nenhum progresso, e nem para dizer - Doutor, estou tentando.- E acha que eu posso te curar, quando você não procura saídas.” Eu precisei bater a porta, e esquecer que tive educação na minha infância, olhar com cara de desgosto para a recepcionista, e sair pisando duro pela rua. Plano de saúde fajuto, terapeuta incompetente. Eu só queria que ele dissesse que não é doença, que é normal. Mas não, ele me faz contar, de novo, pra dizer sempre a mesma estupidez. Olha, cheguei batendo a porta, não respondi ao cumprimento do porteiro, escancarei o alarme da portaria porque eu não quis fechá-la, e quando me olhei no espelho eu realmente parecia uma louca.
Mas isso já faz algumas horas. Cheguei a algumas conclusões sozinha.
Eu disse ao Doutor que estava sentindo. Sentindo de ausência, de tristeza, de dor, de saudades, de medo, de alegria, de amor. Mas não foi bem por aí. Eu disse a ele, logo após a pergunta “O que está se passando por aqui?”, que a verdade é que se passa tudo. Um pouco de tudo. Disse a ele que eu amava as palavras, e queria tomá-las todas para mim quando via pessoas - como ele - desperdiçando-as em uma simples receita preta e branca. Eu disse a ele que quando ia almoçar em um restaurante e lia o letreiro luminoso, eu tinha vontade de escrever. Porque restaurante me lembra restaurar (por qualquer coincidência na sonoridade, ou outra coisa insignificante), e aí eu imaginava um casal, uma restauração acontecendo depois de uma briga que começou no restaurante. Eu pensei que fosse doença, e o meu plano de saúde miserável me oferece um terapeuta ao qual visito a três anos, que nunca me disse uma palavra útil sobre o que eu sentia. Também contei a ele que eu detestava o nome dele: “Eduardo”, porque toda vez que eu lia ”Doutor Eduardo” naquele jaleco meio amarelado, eu imaginava uma drástica história envolvendo uma mulher e um Doutor cafajeste. Eu contei a ele que eu gostava de sofrer para encarnar os personagens sofredores que eu criava, mas que eu sabia que no fim terminariam como um casal feliz. Eu não dormia a três noites, por pura insônia, e contei a ele que folheando o jornal da semana nessas madrugadas, eu tive dó das palavras bonitas que estavam perdidas em anúncios inúteis que ninguém lê. Eu sou assim mesmo. E o Doutor disse que eu não quero me curar. Só porque eu disse que não quero parar de amar o personagem bonitão que eu mesma criei, com todas as características faltosas nas pessoas ao meu redor, e que vou continuar chorando toda vez que eu for escrever mais um capítulo. Ele me interrompeu no meio do meu relato - coisa que terapeutas competentes não fazem - e disse “O seu problema é só com as palavras?”. Eu não acreditei quando ele disse isso, e prossegui ainda mais ofegante que eu amava as palavras assim como se elas fossem gente. Eu as abraçava, chorava com elas, criava com elas. Eu vivia junto delas e às vezes esquecia do meu mundo, do horário da consulta, por sinal. Doutorzinho petulante. Eu ainda disse a ele que gostava de amar, de todos os verbos e gostava de misturá-los em um poema sem nexo. Eu disse o que eu sentia quando via palavras sendo jogadas sem alicerce. Eu tanto tentei, que além de tudo disse que eu amava a forma como amor combina com dor e como doer faz o amor ficar mais intenso.
Assumo que eu abri os olhos de levinho no meio do relato, e o vi fazendo um olhar de desinteresse enquanto olhava para a recepcionista que deixava os papéis da próxima consulta na mesa. Foi quase aí que eu desisti. Um pouco depois de dizer que eu não gostava do dicionário, pois ele não contém os sentimentos mais bonitos com as explicações merecidas, e também, que eu não gostava da minha professora de português que me ensinou a soletrar amor, que me fez ler O pequeno príncipe para uma análise sintática, e que lia trechos de Camões como quem lê receita de bolo. “Eu não gostava mesmo, Doutor.” Eu coloquei essa ênfase quase no fim, quando eu concluía que as pessoas precisam sentir mais as palavras que usam, porque as palavras são bonitas, são bem feitas, elas sentem, elas choram e quem faz um outdoor escrito “Nós deixamos o seu sorriso mais bonito. Esqueça a vergonha de sorrir, nós deixamos o seu sorriso mais branco”, não sabe que sorrir é muito mais que dentes, que tem palavras, que tem coração, que tem sentimento ali por trás. E palavras, as palavras. Eu sinto às vezes por ver a palavra sorriso ser usada em uma propaganda de vendas ao invés de em um bilhetinho dizendo “Eu gosto do seu sorriso”, e foi só isso que eu disse ao Doutor antes de ele me dizer que eu não queria me curar. Mas me curar de que? Nem ele sabia.
Agora eu sei, depois de repensar, de andar na rua observando as palavras saltando pelos olhos e pela voz das pessoas felizes, como a de um gari que me desejou boa tarde, a de um mendigo que sorriu quando eu lhe dei uma moeda de vinte e cinco centavos. O Doutor não soube me dizer, mas agora eu já sei que isso tudo é coisa de gente maluca. Mas gente maluca de tanto ser feliz, maluca por sorrisos, por prazeres. Maluca pelas palavras, porque as palavras tem o poder de fazer os outros felizes. Não é bem uma escolha, eu cheguei à conclusão. Pode ser que eu esteja errada e que aquele Doutor Eduardo, esteja certo quanto a minha oposição à cura. Mas que seja. Concluo que não se escolhe nascer assim, e que todo mundo um dia ainda vai entender, vai se transformar. Se o Doutor está certo, eu prefiro estar doente. Que seja doença bem vinda então.
Assumo aqui, que a minha possível doença, ou talvez a minha cura, é que amo demais as palavras e não gosto de quem não goste delas.
Estou sem terapeuta, mas li em algum lugar, que quem gosta de palavras e adora viver com elas, é quem vive feliz. Li também que costumam chamar essas pessoas de poetas. Então concluo: Minha doença é ser poeta. E Doutor, eu não quero me curar.